Haicai em Parnaíba
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Às vezes, somos surpreendidos em momentos de descontração. E as nossas reações são reflexos da gratidão diante do inesperado que nos permite aprofundar laços de amizade. Foi assim o encontro que tive com o escritor José Luiz de Carvalho, atual presidente da Academia Parnaibana de Letras (APAL), no Instituto Thiciano Ribeiro, em Parnaíba. Esse encontro foi proporcionado pelo senhor Ataliba Costa Pereira, presidente do Instituto e proprietário do Hotel das Pedras, no qual fiquei hospedado.
Ao presidente da APAL, entreguei o livro “O Centenário da Academia Petropolitana de Letras”, organizado pelo acadêmico Cleber Francisco Alves, ocupante da Cadeira 28 da APL, para fazer parte do acervo do honroso sodalício parnaibano. E trouxe, na bagagem, o livro “Almanack da Parnahyba”, 76ª Edição, doação da APAL para a biblioteca da nossa Academia Petropolitana de Letras.
O que era para ser um encontro formal de estreitamento de laços entre as duas academias, ganhou um desdobramento literário, quando o escritor José Luiz falou do seu trabalho com haicai. Como também sou fascinado por essa forma de composição poética que se originou no Japão, a prosa se alongou…
O haicaísta (haijin) José Luiz mantém esse trabalho, preservando a estrutura do haicai em sua forma tradicional, que consiste em uma composição literária com 17 sílabas métricas, distribuídas em três versos: o primeiro com cinco sílabas (redondilha menor), o segundo com sete (redondilha maior) e o terceiro com cinco (redondilha menor).
Com essa proposta de semeá-lo em Parnaíba, publicou, em 2023, “Haicais e Tankas”. E, em 2026, está enviando ao prelo “Haiku”, outro livro com haicais, que tive a honra de prefaciar, pois o citado encontro se deu dias antes dele fechar a edição.
Essa composição literária teve como precursor Matsuo Bashô (1644-1694), responsável pela condução do haicai pelo pensamento Zen-Budista.
A Arte une povos, porque traduz a alma. A linguagem consiste em um instrumento com o qual é possível tocá-la. E, por esse caminho, criam-se laços, quando há Poesia.
O haicai, em sua forma original, não possui título, não há preocupação com rimas. Um dos versos deve fazer referência a uma das estações do ano (Kigo). Esta é explorada pelas suas características vinculadas à cultura nipônica, destacando os elementos da natureza. Como exemplo, temos “sakura” (cerejeira) indica primavera, “momiji” (folhagem vermelha) refere-se ao outono…
Na composição de um haicai, capta-se uma cena da realidade, capaz de provocar uma reflexão sobre a vida. Por essa meditação, tira-se uma mensagem (haimi). Usa-se uma linguagem simples, concisa, sem sentimentalismo, sem excesso de adjetivos. Não se apresenta de forma discursiva.
Um dos primeiros japoneses a fazer haicai no Brasil foi Shuhei Uetsuka (1875-1935) que partiu do porto de Kobe em 28 de abril de 1908, chegou ao porto de Santos em 18 de junho de 1908, trazendo, a bordo do navio Kassato Maru, o primeiro contingente de imigrantes japoneses para o território nacional, formado por 781 pessoas. Ele foi o fundador das colônias de Itacolomi-Promissão e Guaimbé. É considerado um dos pioneiros da Imigração Japonesa no Brasil.
“Karetaki o/ Miagete tsukinu/ Iminsen” (A nau migrante/ chegando: vê-se lá no alto/ a cascata seca.) Esse é o haicai tido como o primeiro escrito por ele, no Brasil, em língua japonesa.
No Parque Shuhei Uetsuka em Promissão, encontram-se os seguintes haicais escritos por ele: “Quando a tarde chega/ um choro se ouve nas sombras/ colheita de café”. “Imigrantes fugidos/ fustigam minha lembrança./ Ah! Noite de estrelas.”
É atribuído a Monteiro Lobato (1882-1948) a autoria do primeiro artigo sobre haicai no Brasil. Publicado, em 1906, com o título “A Poesia Japonesa”, no pequeno jornal “Minarete” de Pindamonhangaba, cidade do interior de São Paulo.
O autor baiano Afrânio Júlio Peixoto (1876-1947), no prefácio do seu livro “Trovas Populares Brasileiras”, publicado em 1919, menciona essa forma de composição poética. Mas o primeiro livro exclusivamente de haicais foi publicado em 1933 por Waldomiro Siqueira Júnior.
Outro autor responsável pela propagação do haicai no Brasil foi Guilherme de Almeida (1890-1969), que, após o encontro com o Cônsul Japonês no Brasil, em 1936, começou a escrever o livro “Haicais em Português”. Em 1937, publicou o artigo “Os Meus Haicais”.
Guilherme de Almeida (1890-1969) foi um dos fundadores da Aliança Brasil-Japão e quem primeiro a presidiu. Ele deu outra estrutura aos haicais. Além de colocar título, estabeleceu um critério de rimas: o primeiro verso rima com o terceiro e o segundo apresenta uma rima interna, em que a segunda sílaba rima com a sétima.
Essa forma de fazer haicai, com tais características, recebeu vários adeptos. Consolidou, portanto, o que mais tarde ficou conhecida como Escola Guilhermista. E os haicais, assim estruturados, são chamados de guilherminos.
É válido ressaltar que o haicai, no Brasil, passou a abordar outras linhas temáticas, fugindo dos critérios adotados por Matsuo Bashô. Ganhou um traço de humor, ironia e crítica social, fugindo do vínculo com a natureza e com as estações do ano. Essa forma de composição sem um “kigo” passou a ser chamada, no Japão, de “senryu”, ou seja, é uma variante do haicai clássico, que, no Brasil, propagou-se principalmente com o trabalho de Millôr Fernandes (1923- 2012) e Paulo Leminski (1944-1989). Porém mantém-se com o nome haicai e não senryu.
E aqui reitero a satisfação por conhecer o belo trabalho realizado pela Academia Parnaibana de Letras. E também por ter a oportunidade de levar um pouco da história da Academia Petropolitana de Letras a Parnaíba. Laços que se estreitam em nome da Cultura e da Arte.
- Ataualpa A. P. Filho
Poeta e cronista – Membro da Academia Petropolitana da Letras – APL (Petrópolis – RJ)