Ele é provocador, valente e elegante na escrita. Não fosse dessa forma teria passado despercebido como tantos outros jornalistas e escritores desta e de outras gerações. E esse comportamento de se antecipar nas opiniões não é de hoje, mas desde que chegou em Parnaíba no final de 1993, portanto há trinta anos.

Como escritor nestes trinta anos na terra de Assis Brasil, outro parnaibano corajoso, Antônio de Pádua Marques Silva, o Pádua Marques, escreveu dez livros entre romances, contos, crônicas e fábulas.

Até agora tem sete publicados. Em 2017 entrou para a Academia Parnaibana de Letras onde ocupa a cadeira 24. Antes, em 2003, entrou para o Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba, onde pouco tempo depois criava a revista Histórica, uma das mais importantes publicações do gênero no Piauí.

Nesta entrevista exclusiva ao portal Correio do Norte, Pádua Marques fala e dá opinião sobre vários assuntos, mostra sua visão como profissional de imprensa e como escritor, influenciador, membro de entidades culturais e editor.

Aos 67 anos, aposentado e agora perto de dezembro quando já prometeu que deixa a atividade jornalística que abraçou por formação e vocação há 44 anos, Pádua Marques aproveita para desferir os últimos golpes naquilo que ele acredita merecer um bom nocaute.

Correio do Norte: – O senhor pertence a várias entidades culturais de Parnaíba, entre elas a Academia Parnaibana de Letras. Depois dela outras entidades com o mesmo propósito apareceram. Elas realmente representam a classe de escritores?

Pádua Marques. Eu entrei na academia em 2017 e a partir daquela época o presidente Zé Luiz, eu, o Gallas e alguns confrades iniciamos um movimento, o Academia Viva, que deu mais visibilidade às ações da APAL. Percorremos escolas, universidades, firmamos convênios para a criação de bibliotecas. Mas a academia de Parnaíba foi idealizada e criada por pessoas da mais alta responsabilidade, gente de nome na praça.

Agora sobre a abertura de academias a qualquer custo pelo Brasil, isso é danoso quando até certo tempo atrás se abria uma em cada esquina. Academias de letras como se brasileiros gostassem de ler. Então fica um negócio esquisito. Muita gente boa escrevendo coisa boa. Mas não há clientela. E essas academias acabam sendo um depósito de vaidades. Realmente não vejo utilidade nessas que são apenas negócios.

Correio do Norte: – O senhor tem sempre defendido uma literatura brasileira onde se acentuem as características regionais. Outro dia criticou a tendência de alguns escritores em escrever, por exemplo, amigos seus por estarem escrevendo poesia em outras línguas.

Pádua Marques. Esse negócio de ficar defendendo, escrevendo incentivando literatura em outra língua como estão fazendo alguns escritores piauienses é prejudicial. É altamente perigoso porque aos poucos a língua nacional vai desaparecendo. Bem que deveriam incentivar a prática, o estudo, a influência do repente na literatura de cordel.

Correio do Norte: –  O senhor é um estudioso e defensor do folclore. Mas nos últimos anos ele tem arriscado no que o senhor chama de “avanços perigosos”.

Pádua Marques. A base do folclore são as danças, as lendas, as artes plásticas primitivas, todo esse conjunto de identidades. É esse conjunto de situações que identificam uma nação. Pode até parecer de certa forma uma aversão ao estrangeiro, mas não é. Mas há atualmente uma tendência de se mexer na fórmula original e até por influência estrangeira. Essas adaptações são altamente perigosas.

Correio do Norte: – Mas isso não significa abrir o conhecimento e a oportunidade para que os brasileiros conheçam e tenham acesso a outras culturas?

 

Pádua Marques. Vou lhe dar um exemplo. Na infância, principalmente em cidades pequenas, até mesmo na periferia das grandes, as meninas com idade entre 6 e 8 anos, por aí, são levadas, iludidas a entrarem nas aulas de balé. Ora, o balé é uma dança, uma manifestação europeia, vinda da aristocracia! Vista pelo lado da configuração social, jamais, dificilmente uma menina de cidade pequena ou da periferia vai chegar ao palco de New York, Londres, Berlim, Estocolmo, Paris, Milão. Essa menina é levada a manifestar desprezo, ojeriza pela sua cultura de raiz, pela dança brasileira. As professoras metem na cabeça dela a ilusão de que balé seja o refinamento da arte de dançar, alguma coisa como manifestação superior.

Correio do Norte: – O senhor sempre cobrou para a cultura e outros segmentos uma resposta rápida para as demandas. Isso às vezes causa desapontamento em todo mundo. Onde está essa dificuldade?

Pádua Marques. Eu estava até pensando em criar uma premiação com festa e muita mídia para essas coisas, essas entidades, órgãos de governo, seja prefeitura ou Estado e até algumas privadas, que não mostram serviço, não mostram resultados, vivem no silêncio, se fazem de mortos e vão passando. Seria assim, em português, o I Prêmio Palito de Fósforo Queimado. Porque palito de fósforo queimado não serve pra nada!

Mas depois eu achei que deveria ser um evento internacional e em inglês, 1st Burned Match Award, mais ou menos isso. Em espanhol, Primero Premio Palillo Quemado e em italiano, Primo Premio Fiammiferi Bruciato. Um colega meu disse que em inglês fica mais atraente. Os prêmios seriam, para o terceiro colocado, 30 reais e uma caixa de fósforos, para o segundo colocado, 40 reais e outra caixa de fósforos e ao primeiro colocado, um pacote de caixas de fósforos queimados e 50 reais.

Correio do Norte: – O senhor sempre criticou entidades, instituições, políticos e até pessoas que no seu entender dificultam a modernidade em Parnaíba. O senhor continua com esta opinião?

Pádua Marques. Olha, a chaminé do Moraes, no bairro da Coroa, tem muito a ver com algumas pessoas, entidades e políticos de Parnaíba. A gente imagina que elas desapareceram, viraram escombros na história, estão carcomidas pelas ideias, mas elas estão lá incomodando a paisagem…

Correio do Norte: – Os historiadores e até escritores parnaibanos se debruçam mais em suas obras ao início do século XIX, a pujança de Parnaíba, com seu porto de rio, Simplício Dias, essas coisas. Até quando essa paixão vai continuar?

Pádua Marques. Essa paixão pelo tempo de Simplício Dias ainda vai demorar algum tempo. Os escritores e historiadores parnaibanos na sua maioria têm idade acima de 60 anos. É natural que passaram a vida toda ouvindo essas histórias. Pra eles o século XX ainda não chegou. Isso é lamentável porque muitos vestígios e memórias importantes já na segunda metade do século passado, o nosso tempo, estão desaparecendo.

Correio do Norte: – Agora mesmo existe uma discussão entre escritores, historiadores, pessoas ligadas à cultura porque o prefeito Mão Santa cedeu o terceiro andar do Casarão de Simplício Dias, o prédio histórico mais importante ainda em pé, datado do século XVIII, para que lá se instale um museu dos maçons.

Pádua Marques. Toda esse bate-boca, essa revolta, esse assanhamento de uns três ou quatro, quando muito, vai acabar dando em coisa nenhuma. Dentro de mais alguns dias a paz retorna. Em Parnaíba os poderes trabalham pra alguns. Esse negócio de criar museus por entidades sem um tostão furado é apenas barulho. Tem muitas entidades culturais em Parnaíba que foram criadas e depois fecharam. É muito triste ser criada uma entidade, formada por escritores, artistas, historiadores, professores universitários, muitos com excelente poder aquisitivo, mas na hora de pagarem uma anuidade de R$100, todo mundo pula fora ou finge que se esqueceu. Eu sou de opinião de que o cargo de tesoureiro nessas entidades deixasse de existir. Aí dá nisso! Eu quando participei por vários anos da Semana da Imprensa, que ao que parece acabou, tantas e tantas vezes sugeri a criação de um espaço para a memória da imprensa. Ninguém me deu ouvidos…

Correio do Norte: – O senhor é um homem de imprensa. Está nesta atividade há mais de 40 anos. Qual a realidade dos veículos de comunicação, dos profissionais com esse avanço das redes sociais?

Pádua Marques. A imprensa de Parnaíba, se é que ainda se pode chamar assim, com tantos blogs de péssima reputação, mal feitos, sem as mínimas noções de ética, são verdadeiras porta vozes das delegacias de polícia. Só mostram crimes, violência, roubos, assaltos, estupros, facções. E interessante que de tanto mostrarem essas coisas, o povo gosta! Dão muita audiência, compartilhamentos e curtições! Hoje até material de imagens de câmeras de segurança viram notícias! O repórter deixou de ter sua utilidade, criatividade e importância e a notícia deixou de ter qualidade!

Correio do Norte: – O senhor passou pela televisão. Qual a sua visão de hoje?

Pádua Marques. A televisão mudou o mundo. É e sempre foi diferente do cinema. Pelo menos no cinema a gente sabe que é ficção, embora às vezes baseado na realidade. Na televisão a coisa fica mais agressiva. Fica difícil identificar onde é ficção e realidade, até no noticiário. No cinema você vai uma vez ou outra, mas pra frente da televisão é todo dia, toda noite. Aqui em Parnaíba a televisão teve seu momento. Tinham equipes boas, bons produtores, repórteres criativos, que mostravam competência. Chegamos por várias vezes a colocar nossas matérias em rede nacional. Hoje acabou.

Correio do Norte: – Vez em quando um jornalista é agredido, assediado, insultado e na situação mais grave no Brasil, assassinado…

Pádua Marques. Ser jornalista em cidade pequena, com pouca cobertura da lei, no Brasil é um verdadeiro massacre, é ultrajante. E a profissão, tanto em cidades pequenas quanto cidades grandes, não tem garantias de trabalho. As redes sociais tiraram das empresas esse monopólio da informação. Isso hoje permite que qualquer pessoa, qualquer idiota construa sua notícia! O repórter se expõe muito a perigos e está sempre na alça de mira de empresários, políticos e outros endinheirados pra ser ameaçado ou corrompido…

Correio do Norte: – Como o senhor vê o surgimento de certas figuras, tanto na economia, na política, nas artes, esportes, enfim, o que está por vir neste século?

Pádua Marques. Cada época tem seus tipos exóticos, suas idolatrias. Trump nos Estados Unidos, Bolsonaro no Brasil, Putin na Rússia, Zelenski na Ucrânia, esse pessoal da inteligência artificial, a Anita. Meu livro Serragem, que está na Banca do Louro, mostra os tipos comuns e incomuns de uma cidade nordestina. Porque toda cidade tem seus doidos! Na minha rua todos os dias passam pessoas passeando com cachorros. Antigamente eram casais que passeavam de mãos dadas ou abraçados. Agora essas pessoas estão sempre silenciosas e olhando pro chão. O mundo mudou, as pessoas estão profundamente deprimidas, estressadas…

Correio do Norte: – Voltando para literatura, Assis Brasil, na sua opinião, qual o legado dele à sua Parnaíba?

Pádua Marques. Foi um grande escritor. Deu à sua terra visibilidade. Pena que viveu longe dela a maior parte do tempo. Lembro que Assis Brasil quando voltou já em idade avançada ao Piauí, preferiu morar na capital Teresina ao invés de Parnaíba. Eu acredito hoje que se tivesse preferido sua cidade de nascimento não se sentiria à vontade depois de muitos anos desde Beira Rio Beira Vida e O Pacamão, sendo insultado. Agora o cenário é outro. De uns anos pra cá cresceu a quantidade de seus leitores e que viraram fãs…

Correio do Norte: –  Em declarações públicas o senhor tem falado que o século XX está se despedindo e que ainda não temos um perfil de seu sucessor em todos os segmentos.

Pádua Marques. Arrisco dizer que dentro de mais dez anos ou um pouco mais, todos aqueles que fizeram a segunda metade do século XX na economia, artes, na política, na ciência, enfim todos os segmentos, terão desaparecido. Este século que deu muita luz e conhecimento ao homem, estará encoberto pelo seu sucessor. Esta mudança de cara é atividade da juventude. A juventude é a ponta afiada do espinho que fura o balão de gás…

Correio do Norte: – O senhor não tem medo de ser mal interpretado, criticado, boicotado e até sofrer algum constrangimento em público por suas opiniões?

Pádua Marques. Não. As pessoas aqui se acostumaram a viver sem novidades. Elas se acostumaram ao ciclo do dia: o sol nasce, chega no meio do céu, elas de tarde colocam cadeiras na porta da rua e ficam conversando as mesmas miudezas aguardando o sol ir embora. Tudo igual todo dia. Alguém vai ter que falar alguma coisa na fila da padaria ou na bilheteria do cinema ou do teatro. Alguém quando a coisa apertar no ônibus vai ter que dizer que não cabe mais ninguém! Eu aprendi com o velho e elegante Hélio Fernandes, da Última Hora, que a vaia é uma manifestação de glorificação, um sinal a mais na nossa existência. O que é terrível e incontornável é o silencio dos que não existem, não coexistem, não provocam nenhuma emoção…