- CONTO

João Marcio, um cidadão comum, no alto dos seus quase 70 anos, seguia em um automóvel, numa segunda-feira, para levar sua filha para o trabalho. Estava apressado, pois o expediente na empresa pública iniciava pontualmente às 8 horas. A filha dirigia um HB-20, com alguns anos de uso, mas muito bem conservado. Ao entrarem na Avenida Coronel Lucas, uma das principais da cidade de Parnaíba, no bairro Nova Parnaíba, apressados, pois já estavam praticamente atrasados, e ainda tinham que passar pelo supermercado para comprar lanches para um café em homenagem à jovem estagiária, Carmem de Fátima, que completaria 18 anos.
No momento, eles invadiram a pista e quase provocaram um acidente, que seria grave, haja vista a velocidade dos dois carros que desciam a avenida rumo ao oeste para atingir a Avenida Álvaro Mendes e seguirem rumo ao comércio na região central. Tremendo foi o susto. Ela, para disfarçar o erro, continuou na Avenida Coronel Lucas normalmente, seguindo o seu destino.
Logo percebeu que dois automóveis estavam muito próximos, um ao lado do outro, seguindo o seu automóvel e buzinando fortemente. A moça, ao volante, seguindo orientações do pai, saiu da avenida e seguiu pelas largas ruas do bairro Bebedouro, fazendo repetidas curvas para se assegurar se era realmente uma perseguição. Como os carros continuavam, ela resolveu parar no final da rua, chegando ao cruzamento da Rua das Flores, bem próximo ao rio Estrela Antigo, braço do Parnaíba.
Logo, os dois homens desceram dos carros e fizeram um cerco ao redor do HB-20, que tinha os vidros completamente escuros. A dupla pai e filha permaneceu assustada dentro do veículo, por alguns minutos que mais pareciam séculos. Os homens se aproximaram, tentando olhar pelos vidros. Não estavam com vontade de desistir, mais curiosos do que raivosos, batiam levemente nos vidros e tentavam abrir as portas. Já estavam prestes a desistir, pois já estavam também pensando o que sairia de dentro daquele carro. Mesmo sendo dois homens de boa estatura, bem jovens, um deles bem forte, parecia um atleta de academia de musculação, ainda sentiam uma mistura de raiva e medo.
Nesse instante, João, que estava no banco do carona, pulou para o banco traseiro e saiu pela porta traseira, por trás do banco onde estava a sua filha. E surpreendeu os dois que estavam na frente do veículo. Nesse momento, a jovem Priscila permaneceu dentro do carro com as portas fechadas. Antes, João havia lhe dito: “Quando eu descer, saia em boa velocidade e corra até a Central de Flagrante e solicite ajuda.” Assim ela fez, imediatamente.
João encarou os dois homens que ficaram ali em sua frente, dizendo palavras de cobrança de responsabilidade, argumentando que poderia ter causado um grave acidente, já que o carro de João havia invadido uma via de trânsito preferencial e ainda tinha saído do local disfarçando o erro. O velho, aposentado funcionário público, com experiência no controle de conflitos e gerenciamento de riscos, manteve-se calado o tempo todo, porém com coragem, olhando fixo os dois homens.
Naquele momento, já passavam das 8 horas. Um pequeno grupo de curiosos, já começava a aumentar para saber no que daria aquela discussão. Próximo dali, havia um velho campo de futebol e uma área de terreno baldio. João falou com firmeza: “Venham comigo” e adentrou ao terreno baldio em direção ao campo de futebol, afastando-se dos curiosos.
Os dois ficaram sem entender o porquê daquele convite e que coragem tinha aquele homem, que sozinho encarava dois, sem nem mesmo ter uma arma qualquer. Desconfiados, mas já mais calmos, seguiram aquele velho em direção a uma área mais ampla. Chegando lá, João falou bem alto: “Se vocês querem briga, o lugar é este, eu estou pronto.”
Os homens ficaram ainda mais curiosos e assustados, pois nunca tinham enfrentado uma situação daquela. Quem era aquele homem tão corajoso e determinado? Após alguns segundos de olhares fixados e movimentos de decisão de atacar, os dois jovens circularam ao redor do velho, que acompanhava com os olhos fixos e girava, sem ficar de costas.
Em determinado momento, com uma voz mais calma, perguntou: “Vocês são de onde?” O mais alto responde: “De Sobral.” “Eu sou daqui mesmo”, disse João. Os homens continuavam tentando encontrar o momento certo para desferir o ataque, mas o veterano não se intimidava.
O mais forte fez uma pergunta: “Por que não está com medo?” “Velho doido?” Ele respondeu: “Porque eu tenho um Deus que me fortalece.” Nem momento
o outro parte e chuta a sua perna à altura do tornozelo. Enquanto, ele desvia-se com um movimento rápido, pulando para trás. O outro tenta se aproximar, mas é impedido com um forte empurrão. O velho o afasta.
O velho, mais uma vez, pergunta: “Por que estamos brigando, aqui nesse lugar?” Um deles disse: “Não sei.” O outro: “Porque você é doido e quase nos mata provocando um acidente, seu velho nojento!” João surpreende mais ainda os dois oponentes, dizendo: “Não, vou mais me defender, podem atacar.”
Os homens ficam simplesmente parados e vão se acalmando. Os três sentam na fina areia branca no campo de futebol, na sombra de uma tamarineira frondosa que parecia ser secular. Ali começaram a falar de suas profissões, de suas famílias e até de sonhos. Quando a moça chega com os policiais, os três já estavam como velhos amigos.
- José Luiz de Carvalho (contista, poeta e cronista)