× Crônica
Eu tinha um compromisso com a palavra. Não a falada ao vento, mas a impressa, encadernada, sagrada. Naquela tarde de 15 de abril de 2026, minha missão era seguir de Parnaíba para honrar o convite da Academia de Letras do Baixo Parnaíba (ALBP), em Luzilândia. Na pauta da noite: o lançamento de Rio de Areia, de Fernando Ferraz, e O Bombardino da Saudade, de Pádua Santos — ambos confrades, ambos filhos da mesma casa de letras de João Cândido que presido, a APAL.
Tudo estava acertado. Às 13h, na sede da Academia Parnaibana de Letras (APAL), nossa comitiva se preparava. O carro seria o do escritor e professor Antônio Gallas, esforçado e competente, Secretário-Geral da APAL. Mas o destino resolveu intervir: Gallas dobrou-se com dores de barriga fulminantes. A viagem, naquele veículo, estava cancelada.
Não hesitei. Mandei o aviso para o outro passageiro, o escritor Pádua Marques, explicando o imprevisto. Depois desci para a Praça da Graça e segui caminhando até a Praça da Santa Casa, onde ficam os táxis que vão de Parnaíba para Buriti dos Lopes. Como o taxista era meu amigo, pedi para passar na minha casa e pegar minhas coisas. A chuva já anunciava seu teatro no céu. Lá, sem cerimônia, enfiei roupa social e sapatos numa bolsa qualquer — o que importava era o verbo chegar. Em Buriti dos Lopes, resgatei meu próprio carro e apontei para Luzilândia, tendo Brenda, minha filha, como piloto e eu, que achava que conhecia o caminho, fiquei na função de navegador. Saímos de Buriti às 16h, já debaixo de forte chuva.
O que era para ser 130 km de asfalto reto virou uma odisseia sertaneja. O GPS perdeu o sinal, a estrada perdeu a placa, e nós perdemos o rumo. Quando demos por nós, estávamos próximos da cidade de Esperantina. O erro custou 80 km a mais e quase um tanque de paciência. Para consertá-lo, enfrentamos mais 20 km de piçarra escorregadia e outros 40 km de asfalto até Morro do Chapéu e, dali, reencontramos o caminho de Luzilândia com mais 26 km.
Lá fora, o céu despejava relâmpagos e trovões como se recitasse Castro Alves em fúria. Os faróis dos carros que vinham de frente, em meio à neblina, praticamente nos cegavam, aumentando o risco de acidentes. Dentro do carro, só havia o silêncio teimoso de quem não voltaria atrás. Eram 19h30 quando os faróis finalmente cortaram a fachada do prédio da Câmara Municipal de Luzilândia, onde seria realizado o evento.
A sessão, que acabou sendo um sucesso, já havia começado. Mas quando entrei, de bolsa na mão e um painel de lona sob o braço — o banner da Academia Parnaibana de Letras — com Rio de Areia e O Bombardino da Saudade protegidos da chuva, fez-se outro tipo de lançamento: o da palavra cumprida. Já estavam todos lá: várias pessoas daquela cidade, os dois autores e seus familiares, o advogado e escritor, Roberto Cajubá que faria a apresentação do livro Rio de Areia, e o Desembargador Arnaldo Boson, que defenderia o livro O Bombardino da Saudade. Além dos acadêmicos da APAL, Amparo Coelho e Cajubá Neto, o presidente da Academia de Letras do Baixo Parnaíba, Ivanildo de Deus Souto, e o vereador Clisergio Plácido, representando a Câmara Municipal.
Mais tarde, durante o meu discurso oficial daquela festa, disse aos confrades: “Honrei a minha palavra. Porém, não farei mais isso”. Todos riram — porque sabem que farei, sim. E encerrei proclamando: “Nosso Projeto Academia Viva segue debaixo de chuvas tempestosas ou de um sol escaldante.”
* Autor: José Luiz de Carvalho (Jornalista e escritor)