O livro Sentimentos- Paixões e Devaneios, de José Luiz de Carvalho, ainda nem chegou às livrarias daqui, mas já chegou a mim. Veio em forma de introdução, assinada por Adrião Neto. E introdução, quando é boa, é igual cheiro de bolo no forno: você já sente o gosto antes da primeira fatia.

Adrião avisa logo: “É uma viagem pelas lembranças, pelo etéreo imaginário de uma alma inquieta”. E eu, que já peguei muito Guanabara madrugada adentro, sei reconhecer alma inquieta. É aquela que não dorme no banco da janela. Fica anotando o escuro.

O livro, diz Adrião, solta o “EU” do autor “na mais pura forma literária, a poesia, sem métrica, sem rimas”. Sem métrica. Sem rima. Só pensamento solto. Igual conversa de fim de noite, quando a gente já tirou os sapatos e fala o que pensa sem medo de parecer bobo. José Luiz de Carvalho parece ter escrito assim: descalço.

Tem cronologia ali. O protagonista nasce jovem, forte, belo. Depois envelhece. Chega ao “início da terceira idade, mas ainda vivendo as emoções das paixões, amores”. Essa frase me pegou. Porque a gente passa a vida achando que paixão tem prazo de validade. Que depois dos 60 só resta a lembrança. O livro diz que não. Diz que o coração não se aposenta. Só muda de endereço.

E tem desenho. Ênio Silva, jovem parnaibano. Ivanildo Emiliano, amazonense sexagenário, ex-paraquedista, radicado em Teresina. Dois artistas “exatamente diferentes em estilo e idade” ilustrando o mesmo livro. Igual Parnaíba: tem o Delta novo e o Porto das Barcas velho, e os dois cabem na mesma paisagem. Os traços, conta Adrião, mostram “o nu e o sexo de forma sutil, respeitosa e profissional”. Porque devaneio que se preze não é pornografia. É sugestão. É o que fica depois que a página vira.

Adrião encerra dizendo que o livro “tem característica universal e pode ser traduzido para qualquer outro idioma sem perder a sua essência”.

Paixões e Devaneios será lançado em breve em Parnaíba. E eu já sei onde vou estar: na fila do abraço, com o livro aberto na página da dedicatória. Porque livro bom é assim. Chega antes. Pela voz dos outros, pelo comentário do amigo, pela introdução que é quase uma crônica à parte.

José Luiz de Carvalho viajou “no íntimo do vale interior da alma humana”. Agora é a vez da gente viajar com ele. Vale a pena embarcar nessa viagem, como disse Adrião.

Até porque, em Parnaíba, a gente sabe: todo embarque bom começa na calçada, com café e prosa. O livro é só a passagem.